China

Bolsonaro diz que polêmica com a China é 'página virada'

Presidente evitou comentar declarações de seu filho e afirmou que não há problemas com país asiático

20/03/2020 11h05
Por: Folha
Fonte: O Globo
Arquivo Web
Arquivo Web

Frente à crise diplomática causada por uma série de postagens do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) responsabilizando a China pela pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira que o assunto é "página virada" e que não há problemas com o país asiático. Os comentários do deputado, compartilhados na quarta-feira, foram duramente refutados pela embaixada chinesa em Brasília, que na noite de quinta-feira divulgou um comunicando exigindo um pedido de desculpas formais do deputado e que o Itamaraty enquadrasse o filho do presidente.

— Esse assunto é página virada. Não existe problema com a China — disse Bolsonaro, na saída do Palácio da Alvorada, nesta sexta-feira.

Bolsonaro evitou comentar as declarações de Eduardo e ressaltou que não pediria desculpas por não ter feito nenhuma acusação contra a China.

— Eu fiz alguma acusação? Me responda se eu fiz alguma acusação. Por que você não pede desculpas? — questionou. O impasse diplomático causado pelo parlamentar gerou um pedido oficial de desculpas de Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e nota exigindo uma retratação da China, emitida pelo Itamaraty.

Análise: Cortina de fumaça diplomática incitada por Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo pode custar vidas

Na noite de quarta-feira, em seu Twitter, o filho do presidente fez uma postagem culpando a China pela pandemia da Covid-19 e comparando-a ao desastre nuclear de Chernobyl. A declaração gerou repúdio imediato da embaixada chinesa, que, no Twitter, chegou a dizer que o filho do presidente "contraiu um vírus mental em Miami" e exigiu um pedido de desculpas. Em seu Twitter, o embaixador chines Yang Wanming disse ainda que os comentários iriam ferir a "relação amistosa" do Brasil com a China, nosso maior parceiro comercial.

Na tarde de quinta-feira, a embaixada chinesa em Brasília voltou a criticar o parlamentar, chamando suas palavras de "absurdas, preconceituosas e irresponsáves", afirmando que "não vale a pena refutá-las" e aconselhando o deputado a se informar por fontes científicas e confiáveis. Isto foi uma resposta a um comunicado divulgado horas antes por Eduardo, no qual reforçava suas opiniões.

Contexto: China tentou abafar alarme sobre coronavírus no início, mas depois retardou sua disseminação global

Em uma nota divulgada durante a noite, a embaixada reforçou suas críticas ao filho mais velho do presidente, fazendo um pedido para que o Ministério de Relações Exteriores enquadre o deputado: "Esperamos que o Itamaraty possa tomar ciência do grau de gravidade desse episódio e alertar o deputado Eduardo Bolsonaro a tomar mais cautela nos seus comportamentos e palavras, não fazer coisas que não condizem com o seu estatuto, não falar coisas que prejudiquem o relacionamento bilateral e não praticar atividades que danifiquem a nossa cooperação".

Análise:'Ao contrário dos EUA, somos a parte fraca da corda'

Elogios a Bolsonaro

No comunicado, a missão diplomática chinesa disse estar "extremamente chocada por tal provocação flagrante contra o povo e o governo", segundo os chineses "um insulto grave". A embaixada também revelou ter se manifestado junto ao chanceler Ernesto Araújo, ainda na noite de quarta-feira, porém sem concordar com os argumentos do Itamaraty, que exigia uma "retratação" do embaixador por ter retuítado uma postagem que chamava a família Bolsonaro de "veneno do Brasil" — o retuíte depois foi desfeito.

Contudo, em uma indicação de que tenta circunscrever a crise a Eduardo Bolsonaro, a representação chinesa no Brasil e o embaixador Yang publicaram nesta noite no Twitter elogios ao ministro da Saúde, Henrique Mandetta, e ao próprio Jair Bolsonaro.

"Sob a liderança do Presidente Jair Bolsonaro, o Brasil está combatendo a epidemia do coronavírus. Como deputado federal, ao invés de contribuir devidamente para esse combate,  você [Eduardo Bolsonaro] tem gastado tempo e energia para atacar deliberadamente a China e espalhar boatos."

A nota da embaixada também trouxe esses elementos, especialmente ao dizer que as linhas de política externa entre os dois países permanecem inalteradas. O texto lembra algumas das iniciativas bilaterais e a própria cooperação na pandemia atual.

"Esperamos que alguns indivíduos do lado brasileiro, na sua minoria, abandonem as suas ilusões e não subestimem a nossa resolução e capacidade de salvaguardar os nossos próprios interesses", pontuou o texto.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Municípios
Últimas notícias
Mais lidas