Quarta, 27 de Maio de 2020
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Geral Governo Bolsonaro

China chama comentário de Weintraub de 'fortemente racista' e aponta 'influência negativa' em relação com Brasil

Ministro usou o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, para insinuar que a Covid-19 é parte de um 'plano infalível' chinês para dominar o mundo

06/04/2020 13h08
Por: Redação Fonte: O Globo
China chama comentário de Weintraub de 'fortemente racista' e aponta 'influência negativa' em relação com Brasil

A Embaixada da China no Brasil respondeu na madrugada desta segunda-feira a comentários do ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmando que suas postagens têm "cunho fortemente racista", causando "influências negativas" nas relações bilaterais entre os dois países. O governo chinês instou, ainda, "alguns indivíduos do Brasil" a pararem com "acusações infundadas".

A nova crise diplomática, desencadeada menos de um mês após a polêmica envolvendo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), teve origem em uma postagem já deletada no Twitter de Weintraub, em que o personagem Cebolinha, dos gibis da Turma da Mônica, era utilizado para fazer comentários xenofóbicos sobre o país oriental, maior parceiro comercial do Brasil e marco zero do novo coronavírus. Segundo o ministro, a pandemia seria parte de um "plano infalível" chinês para dominar o mundo.

"Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreveu o ministro, trocando a letra "r" por "l", tal qual o personagem de Maurício de Sousa.

Em resposta, a embaixada chinesa em Brasília disse que o ministro, "ignorando a posição defendida pela parte chinesa em diversas gestões, fez declarações difamatórias contra o país em redes sociais, estigmatizando Pequim ao associá-lo à origem da Covid-19":

"Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamente absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil", continua a nota, afirmando que o lado chinês manifesta "forte indignação e repúdio" à atitude. Procurado pelo GLOBO, o Itamaraty ainda não se manifestou.

Na sequência, a embaixada chinesa disse que a maior urgência neste momento, frente à proporção da pandemia de Covid-19, é unir os países em uma "proativa cooperação internacional para acabar com a pandemia com a maior brevidade, com vistas a salvaguardar a saúde pública mundial e o bem-estar da Humanidade". O comunicado cita ainda as recomendações da OMS que se opõem à associação de vírus a um certo país ou uma certa região.

A nota encerra instando "alguns indivíduos do Brasil" a corrigirem "imediatamente os seus erros cometidos e pararem com acusações infundadas contra a China". Mesmo tom foi adotado na manhã desta segunda pelo embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, que disse aguardar "uma declaração oficial do lado brasileiro" sobre as palavras de Weintraub.

Em sua conta pessoal no Twitter, o diplomata disse ter ciência de que "nossos povos estão do mesmo lado ao resistir às palavras racistas e salvaguardar nossa amizade", marcando em seguida o perfil oficial do Itamaraty na rede social.

Eduardo Bolsonaro

Este é o segundo impasse diplomático em menos de um mês gerado por representantes do governo brasileiro com a China, uma das principais fontes de investimento estrangeiro direto no país. Em 2019, a balança comercial com o país asiático teve superávit de quase US$ 30 bilhões: o Brasil exportou US$ 65,3 bilhões e importou US$ 35,8 bilhões.

No dia 18 de março, o deputado federal Eduardo Bolsonaro fez uma série de postagens em que responsabilizava o governo chinês pela pandemia de coronavírus, comparando-o com o governo soviético no desastre nuclear de Chernobyl, na Ucrânia,  em 1986, quando as autoridades esconderam e negaram inicialmente o desastre. O filho mais velho do presidente, que atua como chanceler informal do governo e foi cotado para ser embaixador em Washington, disse ainda que "a culpa pela pandemia de coronavírus no mundo tem nome e sobrenome. É do Partido Comunista Chinês”.

Em resposta, Yang chegou a dizer que Eduardo "contraiu um vírus mental" durante a viagem do presidente Jair Bolsonaro à Flórida e chamou as postagens de um "insulto maléfico contra a China e o povo chinês". Na mesma linha, a conta oficial da Embaixada da China disse que as palavras de Eduardo “são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares".

A polêmica levou o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) a fazer um pedido de desculpas formal a Pequim. Deputados também enviaram ao Conselho de Ética da Câmara um pedido de abertura de processo ético-disciplinar, por quebra de decoro parlamentar

A China controlou internamente a pandemia de coronavírus, reportando apenas 39 casos de Covid-19 nas últimas 24 horas, 38 dos quais importados. O país tem buscado usar a pandemia e o controle interno dela no país como uma poderosa arma de soft power, oferecendo auxílio técnico e financeiro a diversos países, além de doações e vendas de máscaras e equipamentos médicos, fortalecendo seu papel em meio à corrida global por estes suprimentos.

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