Terça, 15 de Junho de 2021
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Geral Brasil

Raí no Le Monde: “Além da ‘praga’ biológica, Brasil sofre de um mal muito mais mortal: Bolsonaro”

Além da ''praga'' biológica, essa epidemia tão mal administrada que causou a mais grave crise de saúde da história do meu país, estamos sofrendo de outro mal, muito mais mortal no longo prazo.

12/05/2021 09h49
Por: Folha
Arquivo Web
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Perdoe-me, Monsieur Camus. Perdoai-me também vós, os seus milhões de admiradores… Gostaria de pedir a vossa licença para repetir aqui algumas das vossas palavras, para reivindicar a vossa audácia, para suplicar, como pudestes fazer perante as autoridades do desumano, para lutar, à tua imagem, como um rebelde do mundo que soube recusar a heresia e as suas terríveis consequências.

O brasileiro que sou, como tantos outros, encontra-se assediado, nestes tempos sombrios, por um duplo flagelo cujas devastações são apenas o acréscimo de nossos próprios erros coletivos. Além da “praga” biológica, essa epidemia tão mal administrada que causou a mais grave crise de saúde da história do meu país, estamos sofrendo de outro mal, muito mais mortal no longo prazo.

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Um mal que nos isola diplomaticamente, um mal que atormenta insidiosamente a Amazônia e persegue quem a protege. Um mal que permite a mineração em reservas indígenas, e prefere árvores serradas a árvores vivas… Um mal castrador das liberdades, que ameaça a democracia e reaviva a censura odiosa, promove a intolerância, a homofobia, o machismo, a violência. Ao aprisionar nossa razão e nosso bom senso, ele nos destrói.

Esse mal, que tem suas próprias variantes, é obra de um clã. Associado ao distanciamento, ao negacionismo, à desinformação, à mentira, acaba suprimindo, ainda que temporariamente, nossa revolta, nossa resistência e nossa indignação.

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Para citar Camus: “As pragas, de fato, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar em pragas quando elas caem sobre a sua cabeça. (…) Quando estala uma guerra, as pessoas falam: ‘Não vai durar, é muito estúpido’. E sem dúvida uma guerra é certamente muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez sempre insiste, a gente perceberia se nem sempre pensasse em si mesmo”.

Repressão, agressão, perseguição

 

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Sim, em casa, do outro lado do Atlântico, este oceano que nos separa e nos aproxima, amigos franceses, o mal está em todo o lado: nas questões do ambiente, dos direitos humanos, dos negócios externos. É a ideologia que é perversa, ou quem a teorizou, ou mesmo quem a usa conscientemente?

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Na minha democracia, jovem e portanto frágil, ouvimos recentemente, na nossa própria rede de televisão, um certo Secretário de Estado da Cultura parafraseando um discurso de Joseph Goebbels. Joseph Goebbels, ministro de Adolf Hitler, responsável pela propaganda… Goebbels, o anti-semita, a maldita alma da pior ideologia.

Camus, sempre: “Já tinham visto crianças morrerem deste terror, há meses, não tinham escolhido, mas nunca tinham acompanhado seu sofrimento minuto a minuto, como vinham fazendo desde manhã”.

Devemos, portanto, resistir a essa praga brasileira que veste traje escuro e mascara seu sorriso astuto, ataca por meio da repressão, agressão, perseguição, usando os “resquícios” legais de um Brasil outrora autoritário, como esta Lei de Segurança Nacional, herdada do trevoso período da ditadura militar. E eu pensei que depois de vinte anos de tortura, tantos assassinatos e censuras, nunca mais sofreríamos com tudo isso…

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Esse foi o slogan da última campanha presidencial, que viu a vitória do indizível. Alguns de nós imaginamos que por trás das palavras escondia-se a putrefação vindoura de nossa carne e alma. O chamado salvador não é um e, diga-me, quem seria esse Deus capaz de destruir e colocar a vida humana em um nível tão desprezível?

“Ele sabia o que esta alegre multidão não sabia, e que se pode ler nos livros, que o bacilo da peste nunca morre ou desaparece, que pode permanecer por décadas adormecido nos móveis e na roupa de cama, que ele espera pacientemente nos quartos, o os porões, os baús, os lenços e a papelada, e que, talvez, chegasse o dia em que, para azar e ensino dos homens, a peste despertaria seus ratos e os mandaria para morrer numa cidade feliz”.

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